CAMINA BURANA
No artigo de hoje, trago algumas informações sobre uma obra musical realmente fantástica: a cantata cênica Carmina Burana do compositor alemão Carl Orff. Pelo nome é provável que poucos a conheçam, mas, com certeza, muitos dos leitores já ouviram pelo menos o ato de abertura, O Fortuna, do primeiro movimento chamado O Fortuna Imperatrix Mundi (Ó Fortuna Imperatriz do Mundo), muito utilizado de fundo musical em aberturas de programas de TV e introduções para músicas populares devido ao grande impacto sonoro que normalmente causa nos ouvintes. Trata-se de uma obra muito densa, tanto no sentido musical quanto no poético.
O compositor Carl Orff é alemão. Nasceu em Munique em 10 de Julho de 1885 e faleceu na mesma cidade em 29 de Março de 1982, portanto nasceu no período final do romantismo e viveu durante o período contemporâneo. Era oriundo de uma família de eruditos e militares. Em 1924 fundou uma escola de ginástica, música e dança, na qual incentivava a produção e o desenvolvimento musical de crianças por intermédio das suas próprias vozes e de simples instrumentos de percussão. As obras destinadas aos adultos são dotadas de um maior grau de aspereza, a fim de produzir uma música com maior apelo sensual e excitação física. Uma das obras de Carl que alcançou grande repercussão mundial é a Carmina Burana, que estreou em 1937 na cidade de Frankfurt e da qual ele é o autor somente da música. Explico.
Carmina Burana ou “Canções de Beuern” é o nome dado por J.A. Schmeller, um estudioso de dialetos, à sua edição de 1847, de um códex do século XIII escrito em latim medieval chamado Codex Latinus Monacensis, encontrado durante a secularização de 1803 no convento de Benediktbeuern, na região da alta Baviera alemã. O códice contém 315 textos poéticos, subdivididos em seis partes, sendo que alguns também possuem notação musical ainda em forma neumática (primeira forma de notação musical). Alguns textos são cantigas de caráter satírico e moral, outros são orgiásticos ou festivos e outros falam do amor. A obra de Schmeller tinha o título original de “Canções de Beuern: músicas seculares destinadas à cantores e coros para serem cantadas junto com instrumentos e imagens mágicas”. Por isso, muitas vezes a Carmina Burana também é encenada, obviamente de acordo com o teor do texto. Neste caso, normalmente os cantores solistas assumem, também, a função de atores.
Os textos contidos do códex foram escritos por monges e eruditos errantes, os goliardos, e a variedade de conteúdos do manuscrito é indiscutivelmente atribuída ao fato de que os vários carmina tiveram autores diferentes, cada um com seu próprio caráter, suas próprias inclinações e provavelmente a própria ideologia. Os textos originais são entremeados por notas morais, didáticas e variados nos assuntos, que são especialmente de natureza religiosa e amorosa, mas também profana. Expressam, além disso, o estilo de vida e o pensamento dos autores, os clerici vagantes ou goliardos, que costumavam deslocar-se pelas várias universidades europeias nascentes e assimilavam assim um espírito mais concreto e terreno.
Carl Orff teve acesso à obra de Schmeller e se utilizou de 24 poemas para compor sua própria obra homônima, na qual a parte musical é inteiramente nova em relação àquela contida originalmente no códice. A cantata é emoldurada por um símbolo da Antiguidade, a Roda da Fortuna, que gira eternamente trazendo alternadamente boa e má sorte. É uma parábola da vida humana, que está exposta a mudanças constantes. A cantata Carmina Burana é a primeira parte da trilogia Trionfi de Carl. A seguir está o verso de abertura O Fortuna e sua tradução aproximada. Provavelmente o leitor(a) já ouviu este trecho em algum momento da vida.
O Fortuna velut luna
statu variabilis, semper crescis aut decrescis.
vita detestabilis, nunc obdurate
et tunc curat;
ludo mentis aciem,
egestatem, potestatem
dissolvit ut glaciem.
Ó Fortuna
és como a Lua
mutável, sempre aumentas e diminuis a detestável vida, ora escurece
e ora clareia por brincadeira a mente;
miséria, poder,
ela os funde como gelo.
