O Dom e a Prática
No presente artigo trato de dois assuntos interessantes que estão conectados entre si e sobre os quais tenho presenciado vários debates e respondido várias perguntas. Um deles é, sem dúvida, o mais pertinente entre a maioria dos interessados em aprender a tocar algum instrumento ou estudar música: É necessário ter um dom para fazer música ou tocar algum instrumento musical? Bem, esse será nosso segundo assunto, pois dentro dele ainda há outras questões que freqüentemente me são perguntadas: estou velho para começar? É difícil? E por aí vai. Então, primeiramente, esclarecerei algumas coisas sobre linguagem e analfabetismo musical antes de abordar essas concepções errôneas que se tem sobre tais questões.
Para entendermos prontamente o que é um analfabeto musical basta entendermos o conceito de “analfabeto”. De forma simples, pode-se dizer que um analfabeto é aquele indivíduo que desconhece o significado da simbologia e das normas utilizadas em determinada língua (que aqui é um pouco diferente de “linguagem”). Nossa língua portuguesa, a inglesa ou chinesa, a língua dos sinais, a música, a pintura, o desenho, todas têm suas próprias simbologias, normas e técnicas. Cada uma delas carrega seu próprio modo de expressão e seus próprios caracteres com seus próprios significados. Cada uma tem sua própria linguagem. Conhecê-las nos permite a comunicação de forma mais elaborada, refinada e consistente dentro de cada um desses universos, seja qual for. Nos permite absorver e trocar conhecimento e, no caso da arte, apreciá-la ainda mais. Uma vez que você conhece a linguagem musical, por exemplo, assistirá à um concerto, tanto aqui no Brasil quanto em qualquer lugar do mundo, e saberá sempre o que estará acontecendo. Se você estuda a língua inglesa, se comunicará em qualquer lugar do planeta onde outros indivíduos também conheçam tal linguagem. Se souber sobre artes plásticas, poderá degustar cada pincelada de uma tela. Cada tribo, cada língua, cada arte tem sua própria linguagem. Então, assim como um indivíduo que não sabe ler ou escrever seu próprio nome, por desconhecer a linguagem necessária, pode ser considerado analfabeto, um indivíduo que não sabe ler ou escrever música, pelo mesmo motivo, também pode ser considerado um analfabeto, neste caso, analfabeto musical.
A essa altura deve ter surgido uma pergunta curiosa: e aqueles músicos que tocam “de ouvido” ou que sabem ler as cifras*? Bem, estes podem ser caracterizados como semi-analfabetos, pois mesmo não sabendo sempre o que estão fazendo, conseguem se “comunicar”. Quando falo sobre ler e escrever música refiro-me à ler e escrever partituras, por que é na partitura que o texto musical é redigido.
Alfabetizado musicalmente, então, é o indivíduo capaz de interpretar e dar sentido à simbologia empregada na música, com o objetivo de transportá-la do universo subjetivo para o nosso universo concreto, audível e fisicamente perceptível.
*Cifra: É o nome dado à escrita simplificada dos acordes que compõem a harmonia de uma música quando esses acordes não estão escritos na partitura.
O dom e a prática
Afinal, precisa ou não ter um dom para fazer ou tocar música? Precisa ser jovem para aprender? Existem capazes e incapazes?
Ninguém é incapaz e ninguém precisa ser jovem para aprender. Seja lá o que for. No fundo, não há limites para a mente humana e, pessoalmente, acredito que nós mesmos nos impomos barreiras e limitações. Às vezes alguém nos diz que “não servimos” para determinada atividade e a gente acredita. Isso é um erro fatal. Como falei anteriormente: o conhecimento ou o domínio de uma determinada linguagem é o que nos permite desenvolvê-la sem limites, profundamente. Entretanto, aqui entra outra questão fundamental: a prática. Sem o exercício e a repetição nenhuma linguagem é desenvolvida. Na arte de fazer música ou tocar algum instrumento, somente a prática leva à realização. Tocar envolve teoria e mecânica, movimentos refinados e coordenados, clareza ao discursar. Não basta querer somente. Tem que sentar com o instrumento e estudar à fim de adquirir habilidade e conhecimento aprofundado. Estudar horas e horas e horas até que tudo se torne o mais natural e fluídico possível. Depois disto, a expressão do artista ficará livre para romper qualquer barreira.
Assim que nascemos não falamos, não andamos, não pensamos logicamente, mas com o exercício e com as repetições, ao longo do tempo, das mesmas informações, tudo isso se desenvolve e, muitas vezes, se desenvolve mais em alguns do que em outros, criando a sensação de algo sobrenatural, o tal do dom. Aqui me torno suspeito já que sou multi instrumentista. Porém minha própria experiência me demonstrou a veracidade de um velho ditado popular: “o que não se tem pelo dom, adquire-se pela prática”. Existindo ou não algum dom em especial, a prática é o verdadeiro segredo de tudo. No caso da música e das outras linguagens, a perseverança, a autocrítica e a paciência são bons aliados no processo de aprendizado. Além disso, ter uma boa instrução, com o melhor acompanhamento possível deve ser prioridade.
“Não há limites para aquele se atreve à voar.”
